sexta-feira, 13 de junho de 2008
Na música, como em quase tudo na vida, o acaso costuma revelar-se um excelente conselheiro, com um grau de sensatez que não se encontra na maioria das decisões mais ponderadas. Foi assim que conheci o disco Femme Fatale, o melhor que ouvi nos últimos meses. Aconteceu num dia tórrido do final de Julho do ano passado, enquanto passeava pelo Chiado, em Lisboa. No pico do calor – deviam ser umas 13:30, mais ou menos, e o termómetro devia estar próximo dos 40º – passei à porta da Fnac e tomei uma decisão tão inteligente quanto óbvia: refugiar-me nos ares condicionados da loja e, ao mesmo tempo, praticar um pouco do meu desporto favorito, comprar discos. Depois de deambular pelos corredores, olhar vezes sem conta para os expositores e passar a pente fino as secções que habitualmente visito – electrónica/novas tendência e pop/rock alternativo – preparava-me para enfrentar novamente o calor. Até que uma «Escolha do vendedor» (passei a respeitá-lo, quase a venerá-lo, mais tarde, apesar de nunca o ter conhecido nem sequer saber o seu nome...) me chamou a atenção: Femme Fatale, de Femme Fatale. Gostei do nome do disco e, automaticamente, do da banda também. Olhei para contra-capa para verificar a editora (um exercício que me dá algumas pistas sobre o que está lá dentro). Mushroom Pillow, ou almofada de cogumelos, em português. Independente e com um nome apelativo – já era o segundo. Os estímulos estavam lá todos – a capa, elegante, quase monocromática, mas com muito bom gosto, também ajudou – e foi-me impossível conter o ímpeto de ouvir o disco (na verdade, não preciso de estímulos tão intensos para ouvir discos, mas estes foram por demais irresistíveis). E assim foi. Após uma audição em diagonal das 10 faixas, percebi que era um disco a comprar. De todas as outras vezes que coloquei o CD no leitor, em casa e no carro, especialmente no carro, confirmei as suspeitas: foi o melhor disco que comprei no ano passado e, para mim, nenhum de 2007 conseguiu, ainda, ultrapassá-lo. Femme Fatale, o segundo da banda (mas é como se fosse o primeiro) é bom da primeira à última faixa. Vamos lá então perceber o porquê do título deste espaço e, mais importante, que tipo de música fazem os Femme Fatale. O título justifica-se com a nacionalidade da banda. São espanhóis, apesar do nome francófono e de preferirem cantar em inglês, alemão e francês. A música que fazem pode enquadrar-se na macro-definição punk/rock assumidamente electrónico e dançável, ou na etiqueta electroclash. Talvez as influências, citadas pela banda no seu espaço no My Space – http://www.myspace.com/femmefataleofficialmyspace – dêm mais algumas pistas: Madonna, no iníco de carreira, Depeche Mode, Bjork, Wire, Ladytron, Interpol, Daft Punk, Chet Baker (sim, jazz!), Zoot Woman, Fischerspoooner, Lali Puna, Nocturnos de Chopin (clássica!), Nouvelle Vague, Portishead, Blondie, Orchestral Manouevers in the Dark (início), P.J. Harvey e muitos mais. Com as devidas excepções, estamos a falar essencialmente de bandas dos anos 80 ou de agrupamentos actuais que vão beber às fórmulas musicais de há 20 e tais anos. A produção do disco ficou a cargo de Ian Cooper, que já trabalhou com David Bowie, Iggy Pop, Human League, Joy Division e outras estrelas dos idos 80, e isso ajuda a perceber a sonoridade do duo madrileno composto por Flo, fotógrafa de voz quente e sensual que passa a vida a viajar de metrópole, em metrópole (muitos dos temas foram compostos em trânsito, em cidades como Berlim, Paris, ou Buenos Aires) e Dave Zorton, que nunca andou no Conservatório, mas toca um pouco de quase todos os instrumentos – é mestre nas programações electrónicas e, farto do universo trip hop, vestiu com entusiasmo a pele de electro-rocker. Seria justo desejar que uma grande editora os descubra. A verdade é que isso já aconteceu. Tiveram contrato com a major EMI, mas a experiência acabaria por revelar-se frustrante para ambas as partes. Na independente Mushroom Pillow não têm a projecção mediática e global que, a meu ver, mereciam, mas conquistaram um espaço de liberdade e criação que, numa major, dificilmente conseguiriam ter. Melhor para nós que gostamos de boa música. Parece que há mesmo males que vêm por bem.
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